Fevereiro 06, 2012

A ESTÉTICA DO MAU JORNALISMO

Vocês devem lembrar que a VEJA classificou de golpe a possibilidade de Lula disputar um terceiro mandato. Não foi isso?

Pois bem, a mesma VEJA, paladina da moral e dos bons costumes na política, tratou a compra da reeleição de FHC, em 1997, como uma DERROTA ESTÉTICA.

Na época, Roberto Pompeu de Toledo resumiu a compra milionária de deputados e senadores a um recurso democrático. É mole ou quer mais?

“O governo não saiu amplamente vitorioso? Não teve uma grande uma grande vitória no Congresso e, de quebra sua duração? E a permissão de reeleição não é um recurso democrático? E não é bom para o país que continue um governo que dá certo? Ocorre que aqui não se está falando de substâncial. Está-se falando de estética. Que houve uma perda, em matéria de estética, isso houve”, escreveu Toledo.
Segue o texto na íntegra:

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Há uma estética dos governos, como se sabe – ou talvez não se saiba, e então se fique sabendo. O governo John Kennedy, nos Estados Unidos, distinguiu-se sobretudo pela estética. Pode ter sido bom ou mau.
Talvez tenha sido mais mau do que bom, a acreditar-se na avaliação que se faz hoje em dia, mas foi bonito. Tinha Jacqueline, intelectuais e festas elegantes. O governo Felipe González, na Espanha, também foi bem-sucedido, no plano estético. Dava a impressão de juventude e renovação.
Há momentos em que as nações necessitam desesperadamente de bom gosto.
Na Espanha, naquele momento, era artigo de primeira necessidade, para compensar o déficit estético acumulado em quarenta anos de franquismo.

Há governos que mudam de bonitos para feios. A Cuba recém-saída de Sierra Maestra era bonita, com aqueles jovens barbudos e suas legendas. O mesmo governo envelheceu e ficou feio como o de Enver Hoxha na Albânia ou o de Erich Honecker na Alemanha Oriental. Em outros casos, um determinado governo é beneficiado pelo contraste com o que o antecedeu.

O governo Kennedy brilhava ainda mais em comparação com a sensaborice do governo do general Dwight Eisenhower. O governo de Mikhail Gorbatchev, na União Soviética, foi um assombro, em comparação com os que o antecederam em setenta anos de comunismo.

Era chefiado por alguém que mostrava a cara, dava entrevistas, aparecia com a mulher, exibia independência e personalidade. O ganho estético foi tão notável que o país não agüentou. Morreu. Não existe mais a União Soviética.

No panorama que se descortina atualmente, a República Checa, que tem como chefe de Estado um dramaturgo e ex-prisioneiro político, Vaclav Havel, esbanja distinção. Já a Inglaterra, sob John Major, tem um governo feio.

Da Web

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